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"Disseram-me: verás quando tiveres cinqüenta anos. Tenho cinqüenta anos: não vi nada". Erik Satie



























avant-dernières pensées
24.6.08

AFE!

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tudo isso e eu ainda nem tinha nascido...


3:09 AM Comments:

23.6.08

três do samba


elza soares, esta madrugada, na Fundição.


luis melodia, um deus, também na Fundição Progresso


o sobrinho do bebeto, esta tarde, em Niterói


3:21 AM Comments:



Armas*

Uma vez eu me apaixonei (exagerada, Pedro, lembra?...) por um cara que fazia a parte visual do meu trabalho. A mistura do visual com o som é afrodisíaca. Conversar, trocar idéias sobre conceitos, fazer fotos, coisas íntimas o tempo todo, tête-à-tête. Um dia ficamos horas no estúdio, bebemos, bateu. Voltei pra casa apaixonada por ele. No dia seguinte fui investigar: “Ele também te adora, só que ele é gay”. Cheguei em casa e escrevi um poema enooorme, que guardei. Num outro dia eu escrevi um outro negócio, já motivada por um outro rapaz, cujos encantos verbais e intelectuais me agradaram. Sentei no piano e fiz a canção de amor: metade para o muso gay, metade para o muso não gay. A canção, chamada Armas, tá na aba ouça andréa solo do meu site (o site está em reforma, pode ter errinhos).

Desfecho: um cara eu nunca mais vi, sumiu na bruma do tempo. O outro virou meu brodaço depois de um período de experiência amorosa não frutífera. A canção se mostrou mais duradoura do que as paixões, como sempre, embora eu não a cante mais. Ficou na trilha sonora das vidas passadas.

Armas (Andrea Dutra)

Eu já falei demais, eu já menti demais, e nem sei o que falei, então...

Chega de falar à toa
Dissimulação demais
Usar palavras como armas
Pra me defender do silêncio que denuncia

Chega de falar à toa
Já perdi tempo demais
Usar palavras como escudos
Pra me esconder da verdade urgente

Meus olhos atravessam suas ruas
Você não me vê passar
A minha boca te oferece um beijo
Que vc não vai me dar
E eu não vou roubar
E eu não vou roubar
Não vou, não vou roubar

*Comecei a postar isso com alguma idéia brilhante que se perdeu, mas como eu já tava começada, fica aí a historinha da canção. Todas as canções que faço são baseadas em fatos reais, irreais ou surreais, fatos deste mundo e de outros também. Tem letra que comecei inspirada numa história e finalizei usando o final de outra história. Se a gente não pode mudar o curso da história na vida, na canção, pode. Oba!

3:10 AM Comments:

20.6.08

insatisfação s.a.

Preguiça de viver neste mundo de insatisfeitos que não fazem porra nenhuma pra ficarem satisfeitos. O hábito de reclamar e de sempre dizer que tudo poderia estar melhor é um veneno que nos consome a todos e nos impede de reconhecer com maturidade que a vida é ruim, mas é boa. E principalmente que a gente nunca faz tudo o que poderia estar fazendo, realmente, pra melhorar aquilo de que reclamamos... O sofrimento atribui virtude ao que não tem virtude nenhuma. Esse cristianismo, bá!


Igreja de Sao Pedro vista da Casa Brasil, Rio Comprido, Rio de Janeiro

10:24 PM Comments:

16.6.08

Le monde tel qu'il est

Rio de Janeiro, domingo, 15 de junho de 2008. Ouvi esses dois comentários:

18h - "Que verão é esse em pleno junho, esse calorão?"

23h - "Hoje é aquele dia o-inverno-no-Leblon-é-quase-glacial..."

Ambos comentários eram perfeitamente pertinentes no horário em que foram feitos...


Medo

2:06 AM Comments:

14.6.08

A musica bioquímica do Hamilton de Holanda Quinteto
Circo Voador, 31 de maio de 2008

Lembro perfeitamente do dia em que, ouvindo rádio, pensei: “Perdi! Nunca mais vou ouvir música daquele jeito”. Um músico passa tantas horas com a música, tentando se misturar àquela massa de sons e tempos e alturas e durações e silêncios e emoções, que dificilmente vai conseguir ouvir música como um não-músico. A intimidade muda os melhores relacionamentos, pra melhor ou pior. Com a música não é diferente.

A intimidade faz com que vc nunca mais seja capaz de ser tocado por uma música diferente daquela que vc considera boa. Nunca mais ouvir uma balada açucarada e se emocionar, nunca mais chorar com uma canção boba que toca no rádio, mas que desarma a gente. Adquirimos conceitos demais, julgamentos, imagens, um monte de besteiras e de coisas sérias. Viramos uns guardiões chatos da música que achamos que é a música boa. Achamos, pretensiosamente, que agora sabemos o que é música, que estamos do lado de lá.

A intimidade faz a gente perder a emoção fácil, o encantamento do início da paixão. A proximidade faz a gente ver os defeitos de um quadro conhecido, quase sempre igual a mil outros. Déja vu, clichê, mesmice. A intimidade cansa. Nunca mais a embriaguez fácil dos primeiros encontros, nunca mais o gozo múltiplo regido por solos hiper técnicos, notas difíceis, malabarismos musicais, notas jogadas fora pra nada, pra se varrer do palco ao fim do espetáculo, notas em vão.

Mas a intimidade também faz com que a música vire um delicioso prato exótico, colorido, perfumado, cheio de texturas e temperaturas diferentes, dado aos paladares treinados para o detalhe, para os jardins secretos que a música esconde. Jardim de delícias íntimas, intransmissíveis a não ser por música. É o nosso segredo, nosso prazer solitário, nossa extra-sístole, nossa micro-circulação, nossa linfa.

A musica do Hamilton de Holanda é uma música bioquímica. Ela se mistura aos humores do ouvido, entra pelos sete buracos da cabeça, pelos sete chacras, penetra os confins do cérebro e dispara circulação adentro como um tiro entorpecente, uma poção poderosa que toma e eleva todo corpo em poucos minutos. Dela brotam todos os velhos choros e risos. Nela moram todos os encantos do descortinamento da beleza. Os olhos pedem pra fechar, mas também querem ver aquele gigante mitológico empunhando a arma hipnótica com o qual laça e arremata a platéia embevecida, incrédula e apaixonada. Bocas abertas, olhos fechados, casais abraçados, meninos calados. Todos se curvam ante a postura entregue, sem afetação, do Quinteto. Músicos que tocam música, esporte de equipe, frescobol. Não há adversários, só comparsas, correligionários supra-partidários. Todos jogam pra música ganhar. Dos olhos brotam lágrimas, o coração palpita. Podemos sorrir outra vez.

A música do Hamilton de Holanda Quinteto lavou a minha alma num sábado à noite. A minha e a de todos nós que amamos a música e todo o seu universo de maravilhas e que, humildemente, suplicamos que ela nos aceite em seu colo generoso e nos embale a vida pra sempre.


alô, mamãe!

p.s. recomendo a todos uma audição de Tamanduá, que está neste link, no finzinho da página.

4:50 AM Comments:

11.6.08

Advertência

Beware what you think for they become your words. Beware what you say for they become your actions. Beware your actions as they become your habits. Beware your habits as they become your fate.

ou em bom português

Cuidado com o seu pensamento porque ele se transforma nas suas palavras. Cuidado com as suas palavras, elas se transformam em seus atos. Cuidado com seus atos, eles se transformam em hábitos. Cuidado com seus hábitos, eles se transformam no seu destino.


quem avisa amigo é


2:21 AM Comments:

2.6.08

A moda põe a mesa*

Houve um tempo em que a coisa mais fina que se podia oferecer num jantar era Strogonoff com arroz à grega. Acompanhava Chateau Duvalier, o vinho “fino” oficial do momento. Com o passar do tempo, strogonoff virou comidinha trivial, com versões de carne moída e creme de leite de lata, e o arroz ganhou abomináveis complementos como milho verde, petit pois, batata palha e queijo ralado. Perdeu o posto nobre para outras iguarias, como o Filé à Francesa, o Bife à Parmeggiana e o Frango à Kiev que também esteve na crista da onda, sempre acompanhado de uma certa tensão na primeira facada, quando a manteiga jorrava, fervendo, direto para o vestido e para a camisa do freguês. Depois, o tal frango ganhou recheio de Catupiry, mas nunca se comprovou a existência do tal requeijão da caixinha redonda na Rússia. Catupiry também é candidato a um dos primeiros lugares no modismo das cozinhas, como forma de dar status ao mais prosaico dos bolinhos de aipim.

E o coquetel de camarão? Servido em taças geladas, numa cama de alface picada e molho golf, também entrou em extinção junto com barquetes de salada de presunto e sacanagens, aperitivos montados no palito alternando rodelinhas de salsicha, azeitonas e queijo prato.

O que dizer das bebidas de moça, dos coquetéis dulcíssimos, do Alexander, das Meias de Seda, do Xixi de Anjo, e do coquetel de frutas cheio de groselha? Depois foi a Piña Colada e o Kir, Royal ou plebeu, com muito licor de cassis. Entraram e saíram da moda pra felicidade dos barmen.

Modismo na comida é um fenômeno internacional. O mundo assistiu ao boom do Frango Xadrez, do Sushi, do azeite extravirgem, da ciabatta. O fondue é ainda hoje um clássico dos começos de namoro - no inverno, claro. Agora estamos no momento do triunvirato tomate seco/mussarela de búfala/rúcula. Virou comida tradicional, assim como a tequila é a bebida oficial da adolescência. Vida que segue. Mal posso esperar pelo declínio do vinho de garrafa azul.

* Esse texto, escrito por mim, foi publicado no Caderno H, suplemento do Jornal do Brasil, em 2004. Resisti à terrível tentação de editá-lo, mas pensei em mil e uma alterações e acréscimos possíveis. Vai pro blog como foi pra coluna GastronoRio, que eu escrevia na época. Eu tinha limite de palavras, linhas e colunas, coisa de jornal. Estamos em 2008, pleno reinado do temaki, do balcão de caipifrutas nas festas, das bebidas energéticas com gosto de bala derretida misturadas ao uísque (depois falam do uísque com guaraná, que também foi moda...). Nas festas servem mini-cumbucas de comidinhas de boteco, copinhos de caldinhos, wraps e cascatas de chocolate pra mergulhar frutas. As pastinhas de creme de leite misturado à sopa de cebola de pacote, comidas com biscoito Salclic, entraram em extinção. Os sanduíches a metro saíram um pouco da cena. Há linhaça por toda parte. O vinho rosé ficou chique de novo. Servem sucos de melancia com gengibre e abacaxi com hortelã nas festas. As tábuas de frios, patês e pastinhas e as cestas de pães continuam quebrando um belo galho nas socis e o queijo brie derretido com geleia de damasco continua mandando no rechaud do centro de mesa. Tá bão: para mim essa é uma delícia que não vai sair da moda, nunca!


infância

3:20 AM Comments:

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